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Academicismo - A Tradição das Academias Antigas

Ao longo do século XX, os proeminentes movimentos artísticos tiraram a atenção da observação precisa do mundo material e da aquisição de grandes habilidades técnicas (fundamentos da arte clássica), até um ponto em que o pensamento artístico comum tornou-se extremamente fragmentado pela ânsia na expressão individual (um dos fundamentos da arte moderna). Nas modernas Escolas, Universidades e Academias de arte predomina hoje um ensino voltado à expressão desenfreada de (seca) originalidade, ou originalidade a todo custo, e idéias de minuto, que, acredito eu, não sustentam uma formação cultural a longo prazo.

Contudo, com a crescente revalorização dos ideais artísticos clássicos e o reconhecimento das habilidades técnicas dos Grandes Mestres do passado (principalmente da era pós-renascimento), que temos vivenciado neste início de século, podemos identificar uma proliferação de Academias de Arte tradicionais, em todos os continentes, que focam seus ensinos em técnicas, com rigorosas metodologias. É uma filosofia do ensino que demanda um retorno à disciplina na arte, a atemporais valores clássicos de beleza e ao estudo da natureza, e da realidade à nossa volta, como fundamento para a pintura de grande valor. Estudos nestas Academias concentram-se na importância do desenho como forma de atingir a perfeição na pintura e na escultura. Em particular, a figura humana é bastante exaltada. Através de observação intensa, estudantes conseguem literalidade visual, que os tornam capazes de interpretar valores humanos em seus trabalhos, e, finalmente, produzir obras de relevância universal.

Este tipo de ensino surgiu com as Academias tradicionais na Europa a partir do século XV, que nasceram para suplantar o sistema corporativo e artesanal das guildas medievais de artistas. Até onde sabemos, o ensino do desenho, especificamente, surgiu como um subproduto da caligrafia nos mosteiros da Idade Média. Sua finalidade original era ilustrar textos, com pequenos desenhos incluídos nos manuscritos. No século XV, contudo, os artistas, que até aquele momento eram considerados como artesãos, abandonaram mosteiros, galerias e guildas para se reunirem em oficinas e também nos palácios de seus patronos. É então que o desenho começa a ser utilizado e considerado como forma de expressar graficamente conceitos ou projetos, culminando em escolas de arte como novos centros de ensino. Surge um sistema de ensino que considera o desenho como base de qualquer educação artística, e se espalha rapidamente por toda a Europa. Esses centros, ou Academias, tinham como pressuposto básico a ideia de que a arte pode ser ensinada através da sua sistematização em um corpo de teoria e prática integralmente comunicável, minimizando a importância da criatividade como uma contribuição toda original e individual. Valorizavam antes a emulação de mestres consagrados, venerando a tradição clássica, e adotavam conceitos formulados coletivamente que possuíam, além de um caráter estético, também uma origem e propósito éticos. Esta filosofia foi chamada de Academicismo. As academias foram importantes para a elevação do status profissional dos artistas, afastando-os dos artesãos e aproximando-os dos intelectuais.

Mas conceitos evoluíram até um ponto em que a arte já não era mais considerada como um mero comércio. Desenho e pintura tornam-se algo mais pessoal e livre, além dos limites estabelecidos pelo currículo das academias. Estes conceitos, que mudam ao longo do tempo, podem tornar-se antagônicos, passando de regras rígidas a liberdade absoluta, criando assim dualidade entre a arte dependente de critérios e arte livre de qualquer abordagem coerciva definida.