Arte Tradicional & a Valorização da Beleza - The Alpine Fellowship: Arte Clássica renascida na Suíça

Escrito por Casey Thomas Larsen, este artigo sobre a palestra ministrada pelo professor Roger Scruton para a Alpine Fellowship (um programa de bolsas de estudo recém-criado nos Alpes Suíços que tem como propósito fundir arte e filosofia para o benefício de ambos) vem corroborar o meu tópico "Arte Clássica e sua importância para a sociedade, para o pintor, para o espectador e para o comprador. "

Em 6 de Novembro de 2013

Arte moderna pode ser confusa. Enquanto que a maioria das pessoas poderia explicar o significado geral de um Picasso ou Van Gogh, as travessuras de Marcel Duchamp ou, mais recentemente, Tracy Emin tendem a deixar muitos sem palavras. No entanto, se o valor oculto de urinóis assinados e camas desarrumadas (google imagens Tracy Emin) é melhor compreendido em silêncio conjectural, algum tipo de explicação para muitos dos “trabalhos” que preenchem nossas galerias de arte mais modernas não seria ruim, se já não estiver em atraso.

Dizer que as virtudes da arte clássica, incluindo a habilidade de pintar, têm sido negligenciadas nas últimas décadas, seria eufemismo. As obras que solicitam maior atenção tendem majoritariamente a ser aquelas que provocam choque, ou então exibem originalidade por conta própria e por elas mesmas, e a qualquer custo estético. Não é mais suficiente para a arte apenas convidar a nossa simpatia, muito menos ainda ser permitido a Ela exigir a nossa análise.

É difícil encontrar entre muitos centros de aprendizagem, aqueles que ainda deem valor e aprimorem as habilidades do pincel. Mas eles existem. Um desses lugares é a Florence Academy of Art (Academia de Arte de Florença), dirigida pelo artista norte-americano Daniel Graves. Existente "para a formação do pintor realista profissional e escultor”, seus alunos são proibidos de sequer molhar os paletas antes de passar por um rigoroso curso de desenho. Significativamente, a primeira página do site do instituto é anotada com uma citação do pintor francês do século XIX Jean-Hippolyte Flandrin: "Em uma escola de artes plásticas, é o dever do professor ensinar apenas verdades incontestáveis​​, ou pelo menos aquelas que repousam sobre os melhores exemplos aceitos durante os séculos”. Verdades artísticas que podem ter sido incontestadas no passado, são hoje mergulhadas em uma batalha ideológica feroz, e, a menos que uma defesa seja feita para suas persistências através dos séculos até os dias de hoje, o mercado vai alegremente deixá-las de lado.

A Alpine Fellowship é uma iniciativa que espera revigorar esta discussão. Liderada pelo realista Alan Lawson, atua principalmente como um retiro para pintores - para passar três semanas nos Alpes Suíços sob instrução. Mas Lawson, que estudou com Graves em Florença e posteriormente lecionou na Florence Academy, tem como objetivo ampliar a vocação do pintor realista para além do âmbito de sua tela. Ao longo do programa de três semanas, os artistas e estudantes são encorajados a pensar seriamente e provocadoramente sobre o significado e o valor do seu trabalho, participando de discussões e assistindo palestras de eminentes filósofos e esteticistas. Qual é a diferença entre a pintura realista e uma fotografia? Que papel tem a Arte Clássica em um mundo que aparentemente passou-a para trás, deixando-a no passado?

Talvez não haja pessoa mais adequada para sugerir respostas a essas perguntas que o primeiro orador convidado pela Fellowship, Professor Roger Scruton. Como um dos mais ilustres filósofos do mundo (e prolífico), ele tem escrito sobre temas que vão desde a política conservadora e educação à caça e ao meio ambiente. Sua especialidade, porém, é a estética, o assunto em que ele completou seu doutorado e é, talvez, principal teórico do mundo no mesmo. Mas a questão da estética é, para Scruton, nunca um caso isolado. As coisas com que nós mesmos nos cercamos e as escolhas que fazemos sobre o que admirar vem a determinar quem somos.

Scruton abriu sua palestra na Fellowship com uma analogia entre a natureza da sua palestra e o próprio propósito da Alpine Fellowship. Em omitindo o uso de adereços ou ajudas visuais, uma pessoa estaria engajada na tarefa de lidar com o público, ao invés de simplesmente colocar-se em exibição. Da mesma forma, um pintor não deve atrair a atenção para si mesmo, mas de provocar idéias na mente de quem vê o seu trabalho. As gerações do século XXI são particularmente vulneráveis às tentações e distrações que permeiam nosso cotidiano, sejam propagandas de televisão ou as seduções ​​da internet. Há pouco espaço deixado para reflexão, e os "pontos de descanso" em que encontramos consolo são cada vez mais difíceis de encontrar.

Para Scruton, esta serenidade costumava ser procurada na religião, e depois do Iluminismo, encontrada na Arte. Em suas paixões e afetos, através de seus triunfos e tragédias, os grandes artistas capturavam a condição humana em sua forma bruta e não diluída. De Rafael a Rembrandt, Caravaggio a Botticelli, um conjunto de imortais incontestáveis ​​definiu os “melhores exemplos aceitos durante os séculos" de que Flandrin falou. Mas hoje a medida do valor mudou. As explicações preferidas, e as justificativas, para a existência de algo, tendem a ser a sua utilidade, diz Scruton. O que funciona, o que gratifica, o que vende. Nunca o que aquele algo diz ou faz – nunca a relação ele tem com nós, que o contemplamos.

O título completo da palestra do professor Scruton foi “Arte, o Brega e o conceito de Lar”. A grande Arte é projetada para expressar e lidar com as emoções autênticas, mas para a maior autoridade do mundo sobre questões estéticas, muito do trabalho produzido nas últimas décadas está aquém deste padrão amplamente incontroverso (amplamente aceito e fácil de ser entendido). Quando o auto-mimetismo não pode mais ser justificado como uma paródia sofisticada (ou seja, quando artistas obcecados por eles mesmos não têm mais o argumento de que suas obras, como ‘paródias sofisticadas’ de suas vidas, são, de fato, arte), e a representação deliberada de clichês deixa de ser original, com a repetição, o resultado é algo simples e irredutivelmente brega. Esta é a arte que perdeu qualquer senso de significado, e aponta para nada além de si mesma. E sendo assim, deixa de fornecer um meio pelo qual o artista pode se expressar e expor seus sentimentos, e viver em amizade consigo mesmo, para se sentir em casa em um mundo hostil de desejos e paixões, impulsos que exigem a mão libertadora da arte refinada.

Para Scruton, a beleza é um meio de justificar a vida - talvez o único -, então, não só há pouca coisa mais importante do que discutir o sentido e a direção que a Arte toma, mas não há nenhuma esfera da vida que não é afetada pela sua trajetória de evolução. Foi, portanto, conveniente que sua palestra tenha siso seguida por um grupo de discussão que atraiu pensadores uma ampla variedade de origens intelectuais. Presidida pelo historiador de Cambridge John Adamson, Professor Scruton foi acompanhado no painel pelo fundador da Fellowship Alan Lawson, juntamente com o historiador de arte e editor Dr. Hubert Burda, e seu filho Jacob Burda, um membro do programa de filosofia da Universidade de Nova Iorque.

Discutindo as semelhanças e divergências entre antigas e modernas artes visuais, Dr. Burda tocou no fato de que mais de cinquenta mil retratistas parisienses perderam seus empregos como uma consequência imediata do advento da fotografia no início do século XIX. Ainda de acordo com Lawson, isso não precisaria ter ocorrido, pois o pintor/escultor realista não se preocupa apenas em mimetizar o que vê. O pintor não se limita a copiar paisagens, pessoas ou objetos em uma natureza morta, mas sim os traduz e os interpreta. A fotografia captura instantaneamente um conjunto de valores de cor, mas o pintor deve decidir por si mesmo o que será enfatizado ou neutralizado, durante todo o tempo adaptando a obra à mudanças de luzes, ou mudando tons. Enquanto uma fotografia captura apenas um vislumbre momentâneo de humor, um retrato pintado tem a intenção de transmitir um temperamento cumulativo revelado ao longo de uma sessão.

A importância de tais distinções só importa se o espectador comum está disposto a vê-las. Mas os passatempos do mundo moderno não parecem proporcionar a própria atenção dada a eles. E isso apesar do fato de que, de acordo com Jacob Burda, a maneira que "as coisas aparecem para nós" epistemologicamente pode mudar radicalmente a forma como vemos o mundo e, assim, o grau em que valorizamos o que nos é apresentado. Com base na distinção do filósofo alemão Martin Heidegger entre o ontológico (o que existe) e o epistêmico (como as coisas parecem), Burda insistiu que é dentro do antigo reino que a arte cria seu significado. Arte sugere uma maneira de ser, e nos convida a viver dentro de sua visão. Ela cria um lugar em que nós queremos estar, um lugar em que habitamos simultaneamente enquanto nos esforçamos para chegar lá. Um destino que não precisa de justificação além de si mesmo.

Relembrando de seu próprio retrato pintado por Lawson, Dr. Hubert Burda enfatizou que a concentração incorrupta empregada ao longo da sessão não pode ser encontrada em qualquer outra esfera da vida. Arte importa porque ela nos fornece a oportunidade de parar a marcha do tempo, para estar na frente de nós mesmos e reconhecer o que nos tornamos. Talvez até mesmo a julgar o que vemos. Professor Scruton observou que tanto como o amor, a arte pode perder sua pureza, se diluída pelo questionamento excessivo. Muitas vezes, devemos simplesmente aprender a cuidar de uma coisa antes de perguntar em que consiste o seu valor. E uma vez que o nosso tempo é de natureza limitada, o esforço para nos refletir nela - mesmo que apenas temporariamente - será sempre mais nobre do que o desejo de colocar a pequenez da vida na tela.

Palestra do Professor Roger Scruton no tópico "arte e o brega" na Alpine Fellowship

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